Eleições: disputas políticas, crises internas e jogos de poder

Eleições: disputas políticas, crises internas e jogos de poder

Vitrina, 30.05.2026 - A medida que se aproximam as eleições em São Tomé e Príncipe, a política fica mais ao rubro. O partido Ação Democrática Independente (ADI) afunda-se cada vez mais em divergências internas. Como se não bastasse a rachadura que desde a demissão de Patrice Trovoada de primeiro-ministro marcou o início da clivagem dentro do partido, esta semana a situação agudizou-se com uma queixa-crime apresentada ao Ministério Público contra o atual primeiro-ministro e candidato a liderança do ADI, Américo Ramos.

A direção acusa “alguns indivíduos” - designação atribuída a Américo Ramos e vários outros membros avessos a liderança de Patrice Trovoada – de “usurpação de competências que são apenas adstritas a direção do partido”.

A direção de Patrice quer com esta queixa-crime pedir ao Ministério Público para “estancar esse mal que assola o partido”. O “mal que assola o partido” são as reuniões promovidas, um pouco por todo o país, por Américo Ramos, José António Miguel, Orlando da Mata e outras figuras de proa do ADI com vista a democratização do partido. Os membros do ADI 2 parecem determinados a levar a democracia para dentro do ADI e romper definitivamente com hegemonia de Patrice Trovoada.

Esses elementos têm arrastado consigo uma torrente de militantes nestas reuniões, facto que está a incomodar seriamente a atual direção. Os dissidentes do maior partido político são-tomense estão a forçar a realização de um congresso eletivo para antes das próximas eleições.

Observadores políticos na capital também consideram fundamental que esse congresso seja realizado com vista a definir um quadro legal para o partido, neste momento profundamente dividido.

Patrice Trovoada indicou um candidato, Nito Abreu, e orientou o partido para apoiá-lo na corrida presidencial. É um candidato que, no entanto, não colhe consenso de uma larga franja de militantes. Nito Abreu marcou terça-feira como data para a legalização da sua candidatura junto do Tribunal Constitucional.

A questão que se coloca é se Nito Abreu se oficializará como do ADI ou como independente. Se avançar com o apoio expresso do partido, poderá correr o risco de ser impugnado por outra ala do partido que não reconhece nele o candidato ideal.

Em recente declaração a jornalistas, a vice-presidente do ADI, Celmira Sacramento acusou o Tribunal Constitucional de “fazer um papel político, sujo e vergonhoso” que favorece uma das partes em desavença, lançando suspeições sobre poder vir a caucionar uma eventual fraude nos resultados das próximas eleições.

“Nós tememos piores decisões do Tribunal Constitucional, estamos a fazer tudo dentro da normalidade, dentro da legalidade para que as próximas eleições decorram da melhor forma possível. Estamos de olhos, o Tribunal Constitucional está ao trabalho político”, disse Celmira Sacramento.

Este sábado, o Movimento dos Cidadãos Independentes (MCI) realizou o seu congresso eletivo, sem grandes novidades no figurino da nova direção do partido, que nas últimas legislativas conseguiu eleger cinco deputados.

Mas o congresso do MCI ficou ensombrado nas vésperas com uma decisão do Tribunal Constitucional (TC) que anula outra anterior e, consequentemente, devolve a cervejeira Rosema para o empresário angolano Mello Xavier.

Sem a posse da Rosema, as fontes de financiamento do MCI esgotam-se e sérias restrições serão colocadas nas despesas de campanha. E fazer campanha para conseguir votos sem dinheiro, neste país, é o mesmo que dizer que 2+2 é igual a cinco. Nino Monteiro reagiu, à margem do congresso de sábado, e considerou a decisão judicial de perseguição política.

A única novidade que ressalta deste congresso é a decisão dos Cidadão Independentes avançarem com um candidato próprio para as presidenciais de 19 de julho, cujo prazo limite para a legalização junto do Tribunal Constitucional termina no dia 04 de junho. Nino Monteiro foi anunciado como esse candidato, enquanto o seu irmão foi eleito presidente do partido e, consequentemente candidato a primeiro-ministro, caso o MCI vença as legislativas de finais de setembro deste ano.

Nas vésperas do evento do MCI, o Movimento Democrático Força de Mudança (MDFM) convoca jornalistas para anunciar apoio à candidatura de Carlos Vila Nova que concorre para um segundo mandato.

“A decisão resulta de um processo aprofundado de reflexão interna, consulta aos militantes, diálogo com diversos setores da sociedade e analise da atual conjuntura”, defende o MDFM, acrescentando que o país “vive um momento particularmente exigente da sua história, marcado por desafios económicos, sociais e institucionais que requerem estabilidade, diálogo e sentido de estado”.

Sublinha ainda que “o partido entende que o país necessita, neste momento de consolidar processos em curso, fortalecer instituições democráticas e preservar a continuidade do mandato do atual presidente da república”.

Com as presidências à porta o MLSTP, principal partido da oposição ainda não anunciou o seu sentido de voto. Rumores dão conta de que Jorge Bom Jesus quer avançar como presidente da república, facto que não confirmado nem desmentido pelo antigo primeiro-ministro e líder do MLSTP. Tal como o MLSTP, o Movimento Basta com dois assentos parlamentar na atual legislatura e o Partido da Convergência Democrática (PCD) também ainda não definiram em quem vão apoiar como candidato as presidenciais.

Para já existem quatro candidatos oficializados concorrentes a eleição presidenciais de 19 de julho, nomeadamente, Carlos Vila Nova, Nito Abreu, Nino Monteiro e Miques Bonfim.

M. Barros

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